sexta-feira, outubro 10, 2008

Noite Noitíssima

No silêncio da noite, ele gritou um nome estranho:
- Tamina! Tamina! Tamina!...
Gritou em desespero, sem saber porque gritava ou que nome era aquele que ele não conseguia parar de gritar. Gritou até não ter mais voz. E quando os gritos dele acabaram, fitou a noite escura com olhos que nada viam, completamente perdido. Começou, então, a ouvir um estranho barulho que o deixou aterrorizado, vindo das profundezas da noite.

Ele sabe que devia conhecer aquele barulho. Quer lembrar-se, naquele preciso instante. Acha que se se lembrar não terá medo. Quer saber. Ele sente que precisa lembrar-se. Não quer o barulho que continua sempre e que ele não reconhece, que o assusta.

Interroga-se se estará acordado. É noite. Sim, se não fosse noite a mulher magra e vestida de preto viria acordá-lo. Chamá-lo-ia com aquela voz fina que faz arrepios. E seria dia.
Ele quer que a mulher de preto venha acordá-lo, se ele estiver a dormir. Quer que a mulher de preto o chame, naquele preciso instante. Não quer ter medo. Quer que seja dia.

Mas a mulher não vinha. Era ainda noite. E o barulho continuava. Parava durante instantes, para depois se voltar a ouvir ainda mais forte. E quando o barulho parava ele não deixava de ter medo, tinha medo de tudo o que escutava e que não era o barulho, pois este tinha parado.
Quando o barulho parava ele sabia que ele voltaria. E sustinha a respiração, cheio de medo, à espera de ouvi-lo novamente. E, novamente, ele ouvia o barulho. O barulho que o fazia ter medo e que ele não reconhecia.
Quando o barulho voltava ele não sabia se deveria sentir alívio, ou ainda mais medo. Ele queria que tudo acabasse e dormir se estivesse acordado, ou acordar se estivesse a dormir.

Deixou-se estar quieto, quase sem respirar. Com os olhos muito abertos, ele olhava as trevas. Sentia ódio da mulher magra, sempre vestida de preto. Odiava-a porque não vinha dizer-lhe para se levantar, que já era dia. Assim, ainda era noite. E seria sempre noite. E ele teria medo sempre. Sempre. Sempre. Se ele pudesse pedir-lhe para vir. Esperava, deixando-se estar quieto, olhando a escuridão à volta e dentro dele com os olhos muito abertos.

O barulho parava durante instantes, para depois se voltar a ouvir ainda mais forte. E novamente o barulho parava, para voltar outra vez. E ele sustinha a respiração até voltar a ouvi-lo, sempre cheio de medo.

Na noite e dentro dele qualquer coisa se alterou, mas ele não sabia o que era. Escutou com toda a força que tinha. E não quis pensar, para não ter ainda mais medo. Por fim descobriu que havia outro ruído no meio do barulho que parava durante instantes, para depois se voltar a ouvir ainda mais forte. Ou talvez o ruído sempre lá tivesse estado e ele só agora o ouvisse.
Era quase um lamento, muito triste. Mas ele gostava de o ouvir. Queria mesmo não ouvir mais nada. E o lamento continuava, cada vez mais triste. A ele parecia-lhe que tudo iria acabar, nada poderia resistir a tão grande tristeza. Concentrou-se nesse som triste de que gostava, até não ouvir mais nada. Até ele ser o lamento e dentro dele não haver mais nada, nem sequer medo.

Afastou os cobertores e levantou-se. Pouco depois caminhava na escuridão. Ele seguia o caminho que devia seguir, mas ainda que quisesse já não saberia pensar. Nem ser.

De repente, tudo acabou. Ele deixou de ouvir o som triste de que gostava e que não lhe deixava ouvir, ver ou sentir mais nada. Não lhe deixava ter medo. E, instantaneamente, o corpo dele imobilizou-se. O medo voltou.
Ele não sabia onde estava. Achava que já não estava no quarto. Não sabia. Já nem sequer sabia se alguma vez tinha estado no quarto, se havia quarto. Não sabia se estava a dormir ou se estava acordado. Talvez não existissem dormir e acordar. Talvez ele não existisse. Ele não sabia, mas tinha medo.

As gotas de água gelada espalhavam-se pela cara, pelo cabelo, por todo o corpo dele. Ele deixou-se cair de joelhos, sentindo nas pernas e nas mãos a familiaridade da terra molhada. Ouvia outra vez o barulho aterrorizador, que parava durante escassos instantes, para depois se voltar a ouvir ainda mais forte. E a escuridão à frente dele era marcada por riscos de luz, que iam e vinham.

E ele gritou, na noite. Gritou um nome que não reconhecia.
- Tamina! Tamina! Tamina!...
Os olhos dele estavam fechados, com as mãos tapava os ouvidos. E ele continuou a gritar. Mas não sabia porque gritava, nem sequer sabia que gritava. E com as suas mãos ele tapava os seus ouvidos. Mas não saberia dizer se eram as suas mãos ou os seus ouvidos. Ele gritava e não sabia nada, mas tinha medo.

E ele teve sempre medo, mesmo quando o corpo dele se misturou com a terra e ele passou a fazer parte da noite e da tempestade; mesmo quando o corpo dele continuou a rolar na terra molhada, vezes sem conta.

Por fim, as mãos dele encontraram algo macio e as suas voltas acabaram. Ele ouviu, outra vez, o som triste de que gostava. Novamente, ele era o lamento e só o lamento. E ele já não tinha medo.

As gotas de chuva misturavam-se com o sal das lágrimas dele. As suas mãos acariciavam o animal moribundo. E suavemente, quase com doçura, ele começou a lamber o sangue que escorria do focinho do lobo.

terça-feira, janeiro 24, 2006

2

Tamina acordou sobressaltada. Um arrepio percorreu-a e ela, instintivamente, construiu com os seus longos dedos um símbolo de banimento, no ar. Depois ficou quieta, escutando o vazio, olhando com olhos muito abertos as trevas à sua frente. Nada se movia, no seu mundo. E quase instantaneamente, Tamina soube qual era o perigo: num mundo inferior um demónio tinha obtido a energia de uma luminescente. Viria com a próxima lua negra. A feiticeira arrepiou-se. Dentro de si ainda guardava uma vaga memória da sua existência como luminescente. As memórias dispersaram a mente de Tamina, mas a constatação de que a lua negra seria já na próxima noite, varreu completamente todos os outros pensamentos. A feiticeira saltou da cama e depois ficou parada, sem saber o que fazer.

Entoou baixinho uma longa litania, numa língua que quase lhe arranhava a garganta. Quando o responso para afastar o medo terminou, ela sentiu-se francamente mais calma. Pensou por instantes e resolveu deitar-se mais um bocadinho. A noite estava ainda a meio, a escuridão nada lhe permitiria fazer, tinha que esperar até que a madrugada chegasse.

A feiticeira voltou para a cama, meteu-se debaixo das mantas e, de imediato, sentiu o deslizar sedoso de Anantis na sua perna esquerda. A serpente enrolou-se sobre a barriga de Tamina, que ficou quieta, forçando-se a respirar pausadamente para sossegar a jovem víbora. Tamina fechou os olhos e, pouco depois, entrou em transe.

Ela olha-o. No mundo dele a tarde está quase no fim. Ele está sentado numa sala vazia, no meio de uma imensidão de mesas rectangulares. Está à espera. Dentro e fora dele só há silêncio. Ela aproxima-se e toca-lhe carinhosamente nos cabelos curtos e negros, ele levanta os olhos mas não a vê. Ela sorri. O carinho transparece nos olhos dela. Com uma voz doce, ela fala-lhe, ao mesmo tempo que cria um símbolo no ar. Volta a tocar-lhe, desta vez nas pálpebras. Ele fecha os olhos, suavemente deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados e adormece. Ela começa a cantar, com uma voz profunda, um cântico composto por estranhas palavras, que no sonho dele o acordam. Ele olha-a e ela percebe que, desta vez, ele já a vê. Ambos sorriem. Os olhos dele brilham intensamente. Ela ri, rodopia e tece mais um encantamento. Eles deixam, de imediato, de estar na sala, encontrando-se algures no meio do vazio. Estão próximos, abraçam-se e nada dizem. Luzes vagueiam à volta deles. Luzes vivas. O silêncio impõe-se por um momento. Um silêncio estranho, pesado, que os deixa entorpecidos, como se os corpos deles estivessem quase esquecidos, fazendo parte de outra realidade. E é assim durante muito tempo, até que um coro celestial começa a ouvir-se. Longe, ainda muito longe deles. Outras vozes se juntam ao coro. Muitas, muitas vozes. Eles abraçam-se ainda mais e o silêncio regressa, por instantes, mas apenas para permitir que a música expluda novamente à volta deles. Uma música majestosa e rápida, que os leva a sentirem-se rodopiar a um ritmo alucinante. Até que por fim, a espiral que os corpos deles iam construindo termina e eles vêem-se num lugar distante, no meio das estrelas. Os corpos deles tornaram-se quase translúcidos e ambos têm um fio cor de prata a ligá-los a qualquer coisa, algures.

Nesse instante ela diz mais uma palavra e eles surgem bem no topo de uma montanha muito alta. Ele vê, por entre farrapos de neblina branca, os cumes de outros montes. O horizonte não tem fim. O mundo está à volta deles. E eles são um só.

Acodem à mente dele pensamentos estranhos. Ele começa a escutá-los:

"Lembro-me de ti quando tu ainda eras um corpo minúsculo que circulava na lama quente. Passaram-se milhares de anos para mim, mas tu tiveste sempre o estranho dom do esquecimento... Estivemos juntos, quando no céu de tempestade havia cores fortes. Era o princípio. O primeiro princípio. Não sei se havia som, mas ainda lembro a intensidade do calor. O mundo tinha nome e tu eras nada. Lembro-me da tua luta e, já nessa altura, o mundo respondia com um muro de silêncio ao teu desespero. Mas tu continuaste lá, em movimentos eternos, no lodo espesso. Depois houve sucessões quase infinitas de princípios. Lembro aquele que ainda é o teu último princípio: o teu corpo pequenino circulava na lama quente, desta vez dentro de um universo bem mais pequeno que o mundo de outrora. Foi o teu último refúgio, donde também te expulsaram. E, agora, outro princípio surgirá para ti: dentro do teu corpo, o teu espírito aprisionado girará como uma espiral, na luz branca e quente. A cor baça do fim. Talvez o último dos fins e o último dos princípios. A tua carne ainda é uma prisão de células compactas, mas não será para sempre. Mas eu serei sempre contigo. Daqui a escassos instantes ou milhares de anos, lembrar-te-ei tudo o que houver para lembrar. Daqui a escassos instantes ou milhares de anos, seremos espírito livre que é um com o universo."

Ele sente o seu corpo a ser atravessado por ventos vindos dos quatro cantos do mundo. O vento grita continuamente e ele tem medo. Sobrepondo-se aos gritos do vento, ele escuta o riso suave dela, um riso de criança, mas nem assim ele deixa de ter medo.

A língua bífida de Anantis passa suavemente no queixo da feiticeira, várias vezes. Tamina recupera a consciência. Lagrimas caem dos seus olhos, mas ela sorri. Sabe que está perto, muito perto. Hoje ele quase se lembrou. Se ele não tivesse tido medo... vários pensamentos se atropelam na mente dela. A feiticeira lembra-se do confronto iminente com o demónio. Pensa que se o demónio a matar, tudo se perderá. Tamina estremece violentamente e assusta Anantis, que a morde no pescoço.

1

Naquele instante, Yekwool, um hominídeo gigante, corpo de protuberantes massas musculares, cruzou a fronteira de halo de luz. Sua pelagem rasa, foi-se revelando na sua cor castanho-alaranjada e brilhante, à medida que ele penetrava no mundo luminoso, vindo do lado escuro.

Yekwool caminhava meio errante, cego pela luz a que não estava habituado. Caminhava instintivamente, cambaleando, amparando-se aqui e ali nos cristais que lhe ladeavam o caminho e que cediam sob o seu peso. A vereda estreita por onde seguia, fazia uma curva apertada e mudava de direcção. Yekwool contornou a curva e deu de caras com uma luminescente. Ficaram frente a frente por instantes. Instantes que pareceram eternos, instantes em que Yekwool quase se deixou encantar pela beleza etérea da luminescente. Perdeu-se nos seus cabelos longos, intensamente brancos, de tanta luz irradiarem. Esqueceu-se de si naquelas feições delicadas, na elegância e na beleza dela, uma beleza sem idade. A luminescente recuou, esboçou uma fuga. Yekwool recuperou da letargia, saiu do encantamento e avançou decidido. E de imediato agarrou-a, apertando-a contra si. A luminescente evocou um feitiço e Yekwool viu-se a agarrar o vazio, iludido desfez o abraço e ela, liberta, tentou fugir outra vez. Yekwool perseguiu-a, dominado por uma vontade fogosa, arrebatadora. Apavorada, a luminescente tentava tecer encantamentos no ar, mas ele já não se deixava iludir. Quase a alcançou, ela sentiu um arrepio na nuca, o bafo quente do demónio bem perto dela. Nesse instante, Yekwool agarrou o diáfano vestido que cedeu, deixando-a nua. A luz que ela emanava tornou-se então mais forte e, encadeado, ele perdeu-a, mais uma vez. Yekwool parou por escassos segundos, respirou ofegante. Todos os seus sentidos despertos, atirou-se para a frente, com ímpeto e violência. Saltou e agarrou-a. Prendeu-a firmemente nas suas garras, virando-a para si e, como recompensa do seu esforço, mordeu-a no ombro, junto ao pescoço. Do corpo da luminescente saltaram faíscas. Yekwool sentiu a sua língua a arder, gritou e largou-a. Ela correu, deixando um rasto luminoso atrás de si. O demónio encolheu-se, uivou, o seu corpo foi percorrido por uma energia intensa, que o atirou ao chão. Quando os espasmos passaram, mas ainda com todos os seus músculos a latejar, dolorido e de gatas, ele continuou a perseguição. Yekwool seguia o rasto deixado pelas faíscas, que já se apagavam. Pouco depois, começou novamente a caminhar direito, silencioso e rápido. Avistou novamente a luminescente, que cambaleava e se agarrava aos cristais. Aproximou-se sorrateiro por detrás dela e depois, como um felino, correu e filou-lhe os seus dentes no ombro, com toda a força. Desta vez, ele aguentou a vaga que o invadiu, bem mais fraca que a primeira. Ela apagou-se, deslizando pelos braços dele, que a largou, deixando-a cair. Yekwool olhou intensamente aquele corpo inerte e, num movimento rápido, mergulhou as garras no corpo dela e tirou-lhe o coração ainda luminoso. Olhou fascinado, com os seus olhos a reflectir aquele brilho que apenas se desvaneceu um pouco.

Yekwool dirigiu-se rapidamente para a fronteira que o separava do seu mundo. Quase a trespassar, voltou atrás, e pegou no corpo da luminescente. E levando-a entrou no seu mundo. A sua cor tornou-se parda como tudo o resto. Continuou andando, carregando o corpo da luminescente numa mão e na outra o seu coração luminoso, até chegar a uma clareira. À volta, escondidos na vegetação sombria, monstros e demónios espreitavam. Largou o corpo no centro. Nesse mundo ela tornaria-se numa feiticeira da noite. Olhou à volta, para os demónios que sabia estarem ali.

E depois, sem ele querer, levantou os olhos para as estrelas. Uma rapariguinha, escondida num cantinho do seu coração, através das janelas que eram os seus olhos, olhava mais uma vez para as estrelas. Fechou os olhos, ao mesmos tempo que todos os músculos do seu corpo se manifestaram num rugido que ecoou até as montanhas. Abriu os olhos e letargicamente, olhando as estrelas, caminhou em direcção ao um promontório de um abismo, não distante dali.

Um estalido de ramos secos, na clareira atrás de si fez os seu corpo parar. Virou-se. Na clareira, um demónio aproximava-se cauteloso do corpo abandonado da luminescente. Yekwool atirou-se a ele, com um rugido feroz. O outro demónio recebeu o embate, projectando-se ligeiramente para trás. Os dois agarram-se outra vez, num teste de força. Yekwool levantou o outro, muito acima do solo, numa demonstração de domínio, mas recebeu uma joelhada no peito, que o projectou de encontro ao solo, violentamente. E enquanto o outro demónio se refazia, agarrou-o por detrás, num abraço a tiracolo, e cravou-lhe o joelho no cóccix, forçando a resistência da espinha dorsal. O outro demónio urrou de dor, mas aproveitando um ligeiro desequilíbrio, soltou-se, afastou uns metros, virou e avaliou o seu adversário. E então, baixou-se, de cócoras, aceitou a sua submissão e, de mansinho, escapuliu-se dali.

Yelwool olhou à volta. Os outros demónios, escondidos, lançavam urros ora indignados, ora desafiantes. Yekwool deitou-se ao lado do corpo da luminescente. Os seus olhos ficaram a fitar as estrelas...

As aventuras da que se fazia passar por menininha e do satânico convertido ao budismo

Ele está pendurado pelos polegares, dez metros acima de um imenso jardim de areia e pedras, meticulosamente tratado. É o primeiro segundo. Ele tenta soltar-se do ponto invisível, no espaço, onde está preso, enquanto o seu encéfalo processa em simultâneo triliões de dados, conjugando-os em informação ao longo de milhares de caminhos multidireccionais.

À medida que ele movimenta os pulsos, as suas placas terminais motoras, por intermédio de mensagens químicas, iniciam as contracções musculares. Ele sorri e, antes que as dores se tornem violentas, sobreestimula o seu sistema nervoso, levando-o a inibir todos os nervos que serpenteiam através das fibras musculares das suas mãos. É o primeiro minuto.

Prevendo uma longa espera, ele promove uma redução na temperatura do seu corpo, desencadeando uma reacção que leva todo o seu metabolismo a tornar-se mais lento. No entanto, quase no instante inicial a reacção é quebrada, devido à aparição, vinda de lado nenhum, de uma figura humana numa perfeita posição de lotus, dois metros à frente dele.

Accionada por impulsos eléctricos, a massa encefálica dele regressa a uma situação de maior consumo de oxigénio, já perfeitamente preparada para um processamento rápido. No mesmo instante a aparição, que revela ser uma mulher vestida com túnicas laranja e violeta, aproxima-se até ficar a um braço de distância dele e, quase sem mexer os lábios, diz-lhe:

— Lindinho... um excesso de passividade daria a sensação de aborrecimento. Resistência a mais converteria tudo numa grosseira cena de sadismo. O equilíbrio encontra-se numa imaginativa procura de posições, ligações e nós... Não te preocupes, usarei cordas de seda.

Ele olha a mulher durante alguns segundos, enquanto a electricidade transporta a mensagem dentro das suas células nervosas. Em simultâneo uma menininha vestida de heidi é projectada no seu cérebro, numa imagem desfocada.

— Não grite! Não conteste! Não proteste! Não refile! Não desfile!... — a energia eléctrica falha antes de chegar à zona de contacto em que ocorre a comunicação química intercelular, provocando um corte de vinte nanossegundos na imagem — Não rasure! Não emende!...

— O que é que quer dizer lindinho? — acabou ele por perguntar, em resultado de sucessivas falhas nos seus neurotransmissores.

A mulher olha-o com admiração e respeito, pela primeira vez deixa de se concentrar apenas no tecido celular que cobre os ossos brancos e porosos dele. Instantes depois, a mulher suspira e olha uma última vez o corpo desejado, permitindo, antes de ela própria desaparecer, que a sua imaginação em delírio lhe mostre uma intensa sucessão de imagens de possíveis utilizações a dar àquele corpo, antes de ser transformando em pó.

No instante em que a mulher desaparece, forma-se uma corrente ascendente de ar que transporta para a atmosfera ar morno e húmido, acabando por arrefecer ao longo da subida, provocando a condensação do vapor de água que contém e formando nuvens. Logo de seguida, dá-se o aparecimento de correntes de ar na massa de nuvens, criando electricidade estática. Desenvolvem-se cargas positivas perto do cimo da nuvem, enquanto nas zonas inferiores se aglomeram cargas negativas, as quais atraem cargas positivas do solo. Ele olha à sua volta, processando informação cada vez mais rapidamente. Quase no mesmo instante, conclui que por um tempo, para ele indeterminado, a atmosfera irá actuar como um isolador entre as cargas opostas impedindo o fluxo de electricidade que as anularia.

Após algum tempo os dados alteram-se e ele anuncia, para si próprio, que as cargas eléctricas atingiram tensão suficiente para vencer o isolamento quer no interior das nuvens, quer entre elas, quer entre elas e o solo. Surgem, então, os relâmpagos, que vão atingindo a terra numa média de 100 vezes por segundo.

Trinta segundos depois há um curto-circuito na mente dele e ele revê, a alta velocidade, todas as cenas anteriores, acabando desta vez por produzir uma verdadeira resposta, sem interrogações:

— Nec satam violasse fidem, nec foedere in ullo divom ad fallendos nimine abusum homines.

Mal ele acaba de pronunciar estas palavras, aparece-lhe à frente, vestindo uma túnica fina e branca, uma fada boazona de asas transparentes e lápis e papel na mão. Sorridente ela interroga-o sobre sugestões de interpretação, ao mesmo tempo que o seu bater de asas provoca um ventinho que, cheiinho de artes e manhas, leva à rápida colisão entre massas de ar quente e frio, acabando por se transformar num tornado que, já no seu estado adulto, varre implacavelmente a tempestade para outras paragens.

É a puta da realidade. Ele fica estupefacto com a amplitude das descargas eléctricas que o violentam encefalicamente. Mas tudo isso só dura alguns centésimos de segundo. A corrente eléctrica que circula através das suas células cerebrais, embora não sofra grandes alterações em termos de voltagem, apresenta um aumento significativo do número de impulsos por segundo, construindo uma cartografia com padrões de ondas em constante mutação.

— Oh! Minha Bela!... Tu és a maga da linguagem mítica, tudo o que tu possas dizer são fantasias intemporais, sonho e magia — o campo magnético à volta dele intensifica-se e ele fica sem palavras, mas mesmo assim ainda lamenta que ela esteja vestida.

Ela olha-o aborrecida e, quase logo, desvia o olhar. Promove uma rápida troca de energia internamente, tornando ainda mais fotossensíveis os cones e bastonetes dos seus olhos que assim absorvem uma estreita banda electromagnética de radiação solar, conseguindo então alcançar, com a sua visão, as correntes térmicas de ar ascendente, causadas pelo sobreaquecimento do solo, onde a sua irmã águia com um ligeiro movimento das extremidades das asas se eleva em espiral no ar quente, ganhando altitude. Os olhos dela emitem um sinal dirigido ao cérebro da águia que, nesse exacto momento, desencadeia reacções eléctricas e químicas que originam, instantaneamente, o voo picado em direcção à cabeça dele.

Noc.
Noc. Noc.
Noc, Ring.
Ring. Ring. Ring. Ring. Ring. Ring.

Finalmente ele acorda, abana a cabeça, absolutamente estupidificado pelo sonho e, pouco depois, atende o telefone.
— Tou!
— Olá! Sou eu.
— E?...
— Estou chateada contigo. Por que raio nunca apareces?
— Adivinha!
— Não me ocorre nada.
— Ora, bem sabes que é virtualmente impossível.
— Desculpas não te trarão camelos de recompensa. Pois! E é mais fácil um deles passar pelo cu de uma agulha do que nós chegarmos a algum lado neste meu esquema de sedução mal amanhada.
— Vá lá, não te deixes levar pelo sofrimento. Sabias que o sofrimento é a revelação do budismo? Sofrimento físico e sofrimento moral, como esse teu sentimento de frustração. Assim, sofrer é nascer, envelhecer, adoecer, estar-se separado daquilo que se gosta, não realizar os nossos desejos.
— Oh! Como eu entendo isso. Vezes três.
— Tens que procurar um remédio para este sofrimento, que em sânscrito se chama duhkha. Queres que te conte como Buda
— Ora. Eu sei muito bem qual podia ser o remédio... Olha, o que eu quero, neste momento, é que apareças por cá e partas a loiça toda.
— Porquê a loiça?...
— Menti. Só disse isso para te desconcertar e assim evitar que voltasses à velha religião. Posso dizer que gostava mais quando eras satânico? Mas deixemo-nos disso. Já agora, deverias ter perguntado: "só a loiça?". Hmm, é claro que o que eu queria era que aparecesses por cá... e exigisses compensações. Mas tu nunca vens, raios te partam! E eu tenho sempre que fazer de conta que também sou mecê. Não tens vergonha?
— Tanta como a que tu tens. Mas... tem sido bom para ti, ao menos?
— Oh! Siiiiiiiiiiiiiiiiiimmm!...
— O quê!?
— Foi assim. Perdoas-me, não perdoas, meu senhor?...
— Desculpas destas não se pedem, evitam-se...
— Hmm. Sem castigo?...
— Adiantaria castigar-te?
— Que desgraça que tu és! Reles!... Chateia-te. Muito. Depressa. Quero que me dês açoites até ficares com a mão a arder.
— Como é que é?
— Ora, é simples. Deitas-me encostadinha a ti, no teu colo. Puxas as minhas calcinhas para baixo e bates, mas só um bocadinho!! Nada de ficares com a mão a arder... isso foi só para despertar a tua atenção.
— Minha querida, tens que te convencer de uma vez para sempre que todo o teu sofrimento provém do desejo. O desejo é como um fogo, que inflama aquele que deseja. E tudo está em fogo... o olho está em fogo, o que vê está em fogo, o que o ouvido ouve está em fogo, tudo o que os sentidos tocam está em fogo. A ilusão devora-nos como uma chama permanente.
— É exactamente o que eu sinto, meu senhor. Apenas não digo que é a ilusão que me devora com uma chama permanente. Mas, agora que falamos nisso, há pelo menos umas quantas fantasias à mistura... talvez a ilusão seja isso.
— Hmm... Na origem desta dor, encontra-se a sede de existir, a sede de prazeres que experimentam os cinco sentidos e
— Pára! Eu vivo isso, certamente não preciso dos teus esquemas mentais para entender. Mas não desligues. Hmm, já sei! Vou declamar um poema.
— Deixa-te de merdas!
— Não, não deixo. E que mudança!... Permitem-te que digas asneiras, é?...
— Qual de nós dirá asneiras, ou disparates?...
— E ainda hás-de ficar contristado, irritado, mal-humorado…
— Não te preocupes: tudo tem um prazo de validade.
— Ora, essa frase também não me pareceu nada iluminada. Esqueceste-te de ligar qualquer coisita. Mas ainda bem que falas nisso. Amanhã acabas para mim. Mas hoje existes e eu dedico-te uma boa parte das minhas energias, só porque não me apetece fazer mais nada. Sabes, eu só sei devorar a vida às dentadas, deixo a moderação para os outros. Até porque aquilo que agora nos entusiasma, pode não nos entusiasmar logo mais... assim, porque não lhe havemos de dedicar todas as energias do momento?
— Tudo isso só para falares em prazos de validade?
— De facto, tudo isto só para falar em prazos de validade. Que, aliás, eu nem sei o que são. Define.
— És tão imprevisível!... Mas que outra coisa se podia esperar de ti, senão seres previsivelmente imprevisível?
— Já sei. É assim qualquer coisa que aparece em quase tudo. Iogurtes. Iap. E todos os dias, antes do pequeno almoço, seis aparições de mecê sobre um bule.
— Merda! Já me tinha esquecido que mentalmente tens cinco anos de idade. E, o que ainda é pior, julgas que andas em digressão psicótica, sabe-se lá por onde.
— Oh! Céus, Sim!!! Num marketing viciado em alucinações de mirtilos e renas com campainhas de prata...
— Que caem das nuvens, transformando-se em chuva ácida em contacto com o teu corpo nu, que depois hás-de ver desfazer-se em películas de pele amarelecida, ossos calcificados e carne com nervuras à vista. Tudo misturado com as gotas de sangue que avidamente engolem o pó. Onde é que eu já vi isto?...
— Amor, deves estar a ter um pesadelo. Falhou mesmo a luz, não foi? Hmm, um poemazito, não era?...
— Só se for a alta velocidade.
— Água mel na minha voz chamando-te em espírito e eu nada mais do que feiticeira invisível dançando em volta dos teus gestos sem poder nunca esgotar a minha vontade de ti o mais que tudo da tortura que sem pudor me dilacera em dor fremente que eu recuso deixar morrer dentro de mim em qualquer místico transtorno de espasmos iluminado...
— Socorro!!!
— Fazes falta meu sonho de maravilha e de beleza que eu quero de muitas maneiras desesperadamente despejadas nas minhas mãos que sem fórmulas ao teu corpo hão-de pedir fogo e orvalho num ímpeto adormecido e acordado de luxúria a desprender-se do mais puro afago que arrastarei na acuidade dos sentidos que agrestes se incendiarão e se hão-de ajustar num ébrio atoleiro de malvasia e em ardente claridade e cegueira…
— Pelo amor de Deus!...
— Vem para mim minha ansiada luz da lua e de todos os luzeiros para sempre meu dulcíssimo abrigo e oásis de ameníssimas sombras na passagem para a felicidade minha alegria ao acordar...
— Olha! Queres continuar nisto a noite toda?
— Por ti era capaz de atravessar a pé o deserto da Núbia. Hmm, desde que tivesse sítios onde parar, estás a ver, em cada esquina... oásis artificiais com todas as comodidades.
— E, claro, um contrato de exclusividade com a CNN, no valor de meio milhão de contos.
— Como podes ser assim tão bom?
— Edifiquei-me.
— Isso é outra das tuas taras?
— Seja!... Núbia, então?
— Iap! E uma jangada, feita com feixes de caules de papiros, descendo o Nilo. Se não te importares, claro!
— Queres que te conte tudo desde o princípio?
— Sim. Mas nada de cyborgs. Por enquanto só estátuas gigantes com focinhos animalescos.
— Diz-me, não consegues falar a sério, pelo menos uma vez na vida?...
— Tu é que pediste. Aqui vai... mordo devagarinho a tua orelha esquerda e faço-te cócegas. Tu ris, com os braços à minha volta fazes o tempo parar. Invento histórias para te divertir e brinco com as tuas mãos. Conto-te os teus sonhos. Sorris. E eu amo a criança que brilha nos teus olhos, o teu sono de menino. Amo o velho de cabelos grisalhos que há-de cabear ao lume com um eterno sorriso. E amo o teu corpo ainda jovem e forte. Amo a tua voz que ecoa dentro de mim, mudando-me.
— Pára!!!...
— Ora, meu senhor. Eu estava só a brincar, não te assustes, tá?...
— Tu realmente assustas-me!!...
— Hmm! É esse o jogo. Mas continuemos. Não achas tudo isto muito, mesmo muito engraçado? Onde é que eu ia? Ah! Quando eras criança... Sabes que quando eras criança tinhas um baloiço e o tempo podia parar ou continuar que tu estavas sempre lá, sentindo o vento nos cabelos e rindo dos curtos-circuitos que arrasavam os teus neurónios à velocidade da luz, deixando nos escombros imagens inacabadas que nem sequer eram divertidas.
— Historiazinha chatinha... mas, claro que agora é outro tempo.
— Não, ainda não é, mas há-de ser... como me sinto má, neste momento! Quero que chegue outro tempo e que tu nunca mais faças parte de todo o universo e de nada. Quero que cries limitações e que os teus enigmas passem a ser construídos. E tudo o que te concedas, nesta lixeira urbana, sejam os sentimentos ou as alucinações de sentimentos e as multidões de emblemas egolátricos, que podes sempre dizer reflectirem imagens de culto ou quaisquer outras surrealices. Bem sei que nem assim verás estereogramas por todo o lado e, decididamente, nunca falarás em cinéreas alvoradas. Mas tanto faz, pois outros pesadelos avançam sobre ti e, quando eu te deixar, terás o repouso no teu mundinho de merda que um pouco mais tarde virá a ser povoado por trabalho e colegas, refeições a horas certas e tempo medido em unidades monetárias. Será assim, independentemente do que agora digas...
— Porque não me ouves?... Não sabes que é possível extinguir qualquer fogo e atingir assim a cessação de todo o sofrimento. E até existe uma via precisa para se alcançar essa cessação.
— Voltou a luz, já sei. Mas o que é que isso pode ter a ver comigo?... Para mim, a minha mente não é nem mais nem menos que os meus sentidos, e é também e só uma ferramenta. Sabes, quando eu era criança não precisava de razões. Sabia sempre tudo o que havia para saber. E nada era mais importante do que cada instantezinho das manhãs que eram tardes, das tardes que eram noites e das noites que novamente eram manhãs. Hmm... Era a puta da vida.
— Que lírica estás e, o que ainda é pior, repetitiva. E agora o quê?... Um despertador, em vez do sol, para acordar. E céu sem estrelas.
— Um despertador, em vez do sol, para acordar. E céu sem estrelas. Mas não te preocupes, virá sempre outro tempo com as manhãs tardes noites até que um dia, ou todos os dias, tudo estará bem. E não será assim por ter de ser ou por dever ser. Será assim porque os dias passam e as vontades mudam. Mas não para já, é ainda cedo.... Agora passemos ao teu mundinho planeado segundo requisição governamental. Sim, esse que só será concluído daqui a bocado. Sabes, primeiro preciso separar a luz das trevas e decidir se a luz é boa.
— Desculpa, mas o único todo-poderoso que me convence é o do Dragon ball.
— Nascerás num dia morno, que de tão morno também te há-de deixar a ti nem quente nem frio. E eu dar-te-ei um nome e deixar-te-ei na ilusão de que há sentidos para encontrar ou para perder.
— Por favor!...
— Para ti perfume de flores silvestres, de erva e de romãs...
— Sinto-me a flutuar num horizonte de sonhos infantis, com figurinhas devidamente normalizadas... Olha, estou farto disto. Quero que cortes o cordão umbilical!
— Não me gozes. Certamente não te faço lembrar a tua mamã!...
— Quem disse que fazias? Só te disse para acabares com esta ligação obsessiva!!!
— Só é obsessiva desde há bocado. Vês, nem sequer preciso dos tradicionais sete dias para construir os meus universos. Vá, confessa que isto é giro. Parece que estou a falar a sério, não parece? Não te iludas, isto só mostra que eu na verdade sou mentirosa, sim, fantasticamente mentirosa mesmo quando sofro, como agora, de falta de imaginação. Bom, mas só para que conste: eu só quero divertir-nos!!! E antes de me interromperes, dizia eu que por ti farei o sol imobilizar-se e cansarei mercúrio na sua miserável elíptica antes de te empestar de fumo e de líquidos. Perdão, já me esquecia que agora és um convertido. Nada disto será para ti, pois não? Mas, assim, nenhuma verdade te será revelada. Certeza só a tua namorada banal que, depois do stress e da síndroma de sempre-na-mesma-cama se instalarem, há-de arranjar-lhe um diminutivozeco qualquer, perguntando por ele apenas em cada lua cheia.
— Não me faças rir! Sabes, devias ter mais fé
— Ah! Apanhei-te!... Amor, deverias saber que ao contrário da quase totalidade das religiões, sobretudo das religiões monoteístas, que se fundaram sobre uma fé cega que ninguém discute, vossemecês insistem nos fenómenos que podemos ver, tocar e compreender. A palavra sânscrita sraddha, que traduzem em geral por crença, significa confiança nascida da convicção.
— Sim, e daí?...
— Faltam os tais fenómenos de ver, tocar... queres que seja mais explicitazinha?
— Espera, deixa-me pensar... Sim, longe de nos tapar os olhos ordenando-nos que crêssemos, Buda esforçou-se por arrancar de nós todo o obscurantismo, por aguçar, por prolongar o nosso olhar. De facto, a fé só começa no momento em que a visão pára...
— Maravilha! E isso quer dizer que já queres aparecer?...
— Não. Sabes que respondendo um dia a um jovem discípulo que o interrogava sobre o fundamento antigo da verdade, transmitida pelos brâmanes de geração em geração, Shakyamuni admitiu que nenhum desses brâmanes tinha visto e tocado a verdade pessoalmente. Todos se contentavam em repeti-la como uma lição bem aprendida. E Shakyamuni comparou essas gerações de brâmanes e uma longa fila de homens cegos: cada um agarrando-se ao seguinte, mas nenhum via.
— Ainda não sabes que isso não me diz nada?... mas é claro que posso sempre imaginar esse mundo de escuridão e a tua pessoa agarrando-me, encostado às minhas costas. Ai!...
— Quando é que desistes?... Mas, isso faz-me lembrar que nada existe separadamente. Pelo contrário, tudo está ligado a tudo. Tudo está seguro na imensa rede de Indra, o rei dos deuses da mitologia hindu.
— Sim, já me falaram dessa interdependência de todas as coisas, inclusive da nossa relação com as coisas...
— Não posso acreditar! Desististe mesmo?... Para sempre?
— Sim! Ia-te dizer que essa interdependência vai directamente ao encontro de tudo aquilo que julgamos saber, de uma visão analítica do mundo, dividido em objectos separados: a minha mão, o telefone que ela segura, a mesa sobre o qual está o telefone, a casa em que se encontra a mesa, etc., nenhum destes objectos possui existência separada, não pode ser considerado em si.
— Pois!...
— Imaginemos alguém a ler um texto com estes nossos diálogos absurdos.
— Achas que alguém faria isso? Só se fosse masoquista!
— Como queiras, imaginemos então alguém masoquista a ler um texto com estes nossos diálogos absurdos, numa qualquer folha de papel. Sim, consideremos que imprimiu esta treta toda. Pois, mas nada de distracções. Folha de papel, não era? Repara que a própria folha de papel é feita de elementos não papel. Se remetermos todos os elementos à sua fonte: a fibra à madeira, a madeira à floresta, a floresta ao lenhador, o lenhador ao seu pai e à sua mãe, e assim por diante, constatamos que, na realidade, a folha de papel é vazia. Ela não tem um eu distinto. É feita de todos os elementos não-papel. Se os retirarmos, a folha fica vazia de um eu... pode dizer-se de um ser independente. Thich Nhat Hanh, um mestre zen contemporâneo, dizia que vazia, neste sentido, significava que a folha de papel estava cheia de todas as coisas, de todo o cosmos.
— Perdi-me, creio que não consegui imaginar devidamente o masoquista!
— Não faças isso. Bem sabes que fica estranho se invertermos os papéis. De resto, entre taras sexuais e a iluminação, acabo sempre por preferir as primeiras. A propósito, sabes qual é a tara sexual que eu normalmente pratico?
— Imaginares-me?...
— Que treta! Como se tu fosses importante para mim...
— Não sou?
— És, mas a outro nível. Seja como for, hoje fiz de ti o meu delírio... bom, na verdade adaptei-o de outro delírio, mas não quero falar disso.
— Delírio!?...
— Sim! Eu tenho muitos delírios. E está tudo bem, desde que eu não me leve a sério! Mas que digo eu? Esta personagem que acabei de inventar, na realidade não existe. Paradoxal, não é? Eu nem sequer existo!...
— Claro que não!
— Não é nada difícil convencer-te, pois não? Mas é verdade: eu não existo!!! Sou uma alucinação, um pesadelo, ou o que quiseres. Mas não tenho qualquer existência real. E se ando por aqui é só porque, algures lá na tua mente, quiseste que eu viesse. Que queres? Achas que eu me permitiria ficar com as culpas? Pois é, então quiseste que eu viesse e eu vim. Querido, meu querido, ainda não sabias que é preciso ter cuidado com aquilo que queremos, pois não? Isto é, é preciso ter muito cuidado com o que pedimos aos deuses pois eles podem conceder-nos exactamente isso!... Céus consegui confundir-me a mim própria. Que raio, esqueci-me que, para ti, isso de eu não existir está óptimo. De resto, tu nem sequer tens a certeza de tu próprio existires, não é?...
— É. Nem sempre me sinto verdadeiramente vivo...
— Claro!!!... Achas que eu acredito realmente nisso? Porque é que não apareces cá?... Eu garanto que te deixo sem quaisquer dúvidas quanto ao facto de estares total, completa e absolutamente vivo.
— Acho melhor voltar-me para a budeidade...
— Tudo bem, eu agora também já só quero parar. Acabar.
— Também eu. Já não quero que inventes mais nada. Nada de nada.
— Mas ainda te estás a esquecer de uma coisa...
— O quê!?...
— Tens que me dizer que tudo o que eu acabei de inventar é verdade...